segunda-feira, 26 de novembro de 2012
o penoso labor da fabricação de mel artesanal
a falta do que fazer não poderia ser tão ruim assim
era o ar que respirava e as partículas impuras
a saudade do que jamais houve de acontecer
haja o que fosse era tudo da mesma moeda
nem uns trocados a mais nem um pouco no bolso esquerdo
do outro lado os cigarros e um velho isqueiro azul
cor do céu que nunca tinha visto tão de perto
chegar lá cansaria demais
era trabalho e isso não é fácil
e a cada hora a sombra que mudava de lugar chegava longe
quanta pretensão e costas e ombros largos
carregava todos os fardos da sua humanidade
um pouco mais de tempo e a eletricidade faz o seu papel
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
erro de digitação
todos os artifícios que fazem esquecer
já não faço contas e não conto histórias
me restaram as mentiras e alguns sonhos
tudo sem importância
ou relativizando o conceito de importância
nem existem ou fazem parte de alguma coisa
pode soar vago ou sem o menor sentido
abre aspas coisa fecha aspas
palavra essa que serve para tudo
mas no fim das contas
não quer dizer nada
como se eu dissesse
que naquele canto escuro
atrás das teias de aranha e manchas de mofo
escondo minha ignorância
não repare na bagunça ou no estojo de maquiagem
com o tempo nos acostumamos as piores posições
e de se acostumar ou ter medo da morte
exemplo de oração subordinada
oramos a um nada barra falta de luz barra
onde os satélites não alcançam
criticamos os que olham e vêem o espaço vazio
e repudiamos tudo aquilo que ainda é desconhecido
e até se fossem telescópios que enxergassem
aquele canto escuro
não nos mostraríamos por completo
terça-feira, 13 de novembro de 2012
colar de ossos
nos tornamos máquinas pintadas de preto
em um dia ensolarado qualquer
todos os dias não passam de um vazio eterno
um fundo de verdade em cada sorriso amargo
outras formas de vida que não respiramos
os fracos não tem vez por essas bandas
seguiram o curso da história e fizeram a sua parte
ofertando suas cabeças aos deuses
choro que deixa o rosto coberto de fuligem
deixa para lá esquecido em meio a tanta gente
passos apressados em direção a enorme mandíbula
somos todos devorados por dentes metálicos de lobo
nossas peles perderam a proteção
e não passamos de cordeiros morrendo de fome
a espera de mais uma migalha de pão
faz de conta e conta a distância que é preciso percorrer
até encontrar a superestimada felicidade
ninguém precisaria de tudo isso
um afago ou alguns dedos a mais ou minutos
tantos cadeados em portas e janelas
o caminho mais seguro fica para o outro lado
e ainda assim precisamos envelhecer cada vez mais
queremos ternos caros e viagens sem sentido
tanto fazemos isso parados em qualquer lugar
pelo menos um cigarro
para trazer de volta a velha autoestima
de que adiantaria o pigarro
sem que nos sufocasse
com seus dedos entrelaçados na garganta
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
cabeça abandonada
o tempo passara desesperadamente
foram as cinco da manhã e fazia um frio do caralho
do que estariam preocupados os grandes pensadores?
nada na televisão ou outra coisa qualquer
faziam de contas os cálculos diferenciais integrados
e nada daquilo lhes servia para porra nenhuma
freud estava lá
era um merda em matemática
não precisava pensar
apenas dizer um amontoado de bobagens
nietzsche e seu velho hábito com as putas
bom de palavras e igualmente preguiçoso
os relógios digitais ainda são os mesmos
arthur rimbaud inventaria novos relógios e os penduraria no pescoço
cantava uma bossa nova pelo canto da boca
puta merda onde enfiaram a minha bebida?
alguém tocou a campainha
isaac newton
não aceitamos estranhos aqui
quais livros você já leu?
gosto de fazer contas e algumas paradas de física
esse não é o seu lugar
fecha a porta
ta um frio do caralho
mas para que essa mania de bukowski
escrevendo um monte de palavrão
coisa ridícula
falemos baixo
e em outro tom
língua dos diabos
três vozes da mesma garganta
falar baixo para que?
os intelectuais ali no canto
eles acham que são os únicos aqui
e essa merda não é nem um poema
mas tem cara de poema
pula linha
outra
essa babaquice toda
vai ler um pouco de fernando pessoa
vai
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
resina sintética
as vozes calaram para sempre
eu posso ver tudo daqui de cima
apenas uns lapsos nervosos
correntes elétricas passam com pressa
terminações e ligações diretas
as lâmpadas acesas e horas inacabadas
e a vergonha de sentar e sorrir
vi com meus próprios olhos
emprestados de uma cabeça enorme
entalhada em barro e madeira
um bocado disso e daquilo
em câmera lenta e desfoque
eu não ficaria aqui nem mais um segundo
estava tranquilo e o silêncio era uma merda
o caminho cheio de pedras
mas o chinelo aguenta
borracha e resina sintética
tudo foi criado antes desse lugar
eu não poderia me ajudar
algumas pessoas são facilmente enganadas
estagnadas e ficam lá
horizontalmente reclamando da cortina
ela não esconde a janela inteira
e o sol sempre acha um buraco
e é um pouco agradável
não muito nem o suficiente
mas nunca trocam a maldita cortina
poderia ser pior mas que se foda
andar e se perder não é tão ruim assim
para isso existem as bussolas e mapas digitais
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