quarta-feira, 9 de outubro de 2013

tinta nanquim

chegamos onde ninguém pôs os pés
estamos farrapos
maltrapilhos
mal tratados
sorrimos um pouco
nossa ignorância conforta
era mais do que pudemos desejar
jamais era tudo de fato
eram vontades e mentiras
fomos felizes
soubemos usar a combinação
de elementos químicos necessários
para fabricar felicidade
depois morremos por dentro
saciando a fome dos invertebrados

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

amanhã de manhã

somos aqueles olhos fechados em cima da estante
nos aquecendo em fumaça de cigarro
por tudo aquilo que não vimos
me calo a boca e quieto cale-se
não precisamos de todo esse barulho
nosso mérito é o ruído


cercados de outros caminhos errados
abençoados somos filhos do acaso
oramos a deus e todos os seus pecados

ermos as nossas cabeças cortadas
servem de abrigo para ideias inacabadas
temos nossa vontade e muito sono
temos cama
e nenhuma vontade de dormir

o salvador não nos espera de braços abertos
somos toda a forma de felicidade
concentrada em potes bem fechados
somos o amanhã de manhã


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

o banquete dos ácaros

ouvimos rumores por cima dos muros
nas casas dos outros olhos aflitos
cospe da boca toda a sujeira

o seu lugar é aqui conosco

espelhos de nós somos outros tantos medos
medo do escuro e das luzes acesas
trememos os dedos e marcas na pele
alimentamos ácaros e culturas ocidentais
somos frutos vertebrados amargos
respiramos o cheiro do ralo
para lá em que corremos
fugindo do estrago

criamos bonecos de barro
para disfarçar os espasmos
tememos um deus de ganância e desespero
construímos qualquer identidade
não somos filhos de ninguém
vendemos nossos corpos a céu aberto
por que para nós
só resta o conforto do inferno

terça-feira, 13 de agosto de 2013

a luz fria de baixo consumo da poesia sem valor semântico

acordado em cafeínas e cigarros baratos
rastejo pela lama dos meus sapatos
guardados
escondidos
estagnados de tanto andar em círculos
desprezando o céu sobre minha cabeça
o melhor caminho
é o que apresenta os piores resultados
sou fruto ingrato
da mãe natureza morta
em copos plásticos e espelhos portáteis
invejo meu reflexo em dentes dos outros
tantos sorrisos inacabados

em legitima defesa
mortificamos as palavras
os amores santificados
todos os meios amargos de sobreviver

nos olhos vermelhos
escondo os farrapos
já estive por esses lados
jesus leu sobre o que dizemos dele
gostou dos advérbios
perguntamos sobre nietzsche
sobre a nuvem de fumaça
o canto magnifico dos roedores
dos mortos de fome
o metálico som de sangue descendo a garganta

estivemos mortos por todo esse tempo

não gostamos da escuridão
temos medo dos monstros atrás do armário
debaixo das camas
das esquinas perfumadas de amônia

fomos nós que costuramos facas em nossas mãos

todos os argumentos acabaram
crucificamos nossas melhores verdades
até os ossos cansarem
era demais estar ali por tempo que fosse
ainda teríamos nos matado

guardamos as unhas para depois
ainda assim saímos ilesos
delicadamente indefesos
paradoxos perfeitos
toda a sujeira foi empurrada
para debaixo do tapete

onde fazemos cama
só dormiremos de manhã

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

antiguidades esquecidas debaixo da cama

viver até ficar velho
estar velho
falar velho
ser sombra de velho
o tempo some
morre
perde a memória
leva pra casa
toda a discórdia
da morte
da hora
beira da cama
o esquecimento
lençóis
camas trocadas
comprimidos coloridos
preto e branco
para poder ir embora
ou ficar ensinando
todo o não saber de velho
toda falta de esperança
conheço cada perda de lembrança
em sorrisos ocos e apagados
dormindo
sonharei com a morte
dormirei acordado
acordado