quarta-feira, 3 de outubro de 2012
a desordem dos românticos
uma arma na mão esquerda
a que propósito se diz adeus?
fumaça que cheira transparente
nenhum tom de cinza
onde foi parar a porra do céu?
estamos todos na mesma merda
merda inacabada maldita
a desordem dos românticos
que se exploda em mil pedaços
bum!
que barulho é esse?
deve ser o cachorro
cão que ladra não morde
morre de fome
anda em círculos antes de sentar
gostava tanto de sentar
mas não era o suficiente conforto
que nos deixasse assim
deitados pouca roupa nenhuma luz
queimados os restos espalhados de pano no quintal
sorriamos com um pouco do canto da boca
enquanto os dedos perfurados
acusavam as pobres roseiras
foram tantos os cuidados
demasiados de propósito
sem por que ou com acento
circunflexo convexo
é só o reflexo no espelho
não tem nada mais aqui
terça-feira, 25 de setembro de 2012
meio-fio
olho para os dois lados antes de atravessar a rua
o semáforo desdenha seu reflexo avermelhado
gotas de sangue espalhadas pelo chão
o choro dos pombos e da falta de migalhas
na calada da noite
as vozes que falam mais alto
gritam berram esperneiam
tantas palavras rabiscadas com unhas postiças
e ninguém para ouvi-las
não há carros ou mendigos ou abraços
rostos passam correndo
para onde foram as despedidas?
longe demais
no fim das contas
a calçada é a única companhia
terça-feira, 18 de setembro de 2012
estirpe beatnik
se a verdade fosse ao menos
encarregada de consigo aos pedaços e canseiras
costas largas e ombros frágeis
empunhar a navalha de fio cego
olhos vendados e as mãos suadas
taças de vinho sobre o pano manchado de sangue
o que a boca teria a dizer
as narinas de fumaça o pouco ainda do ultimo cigarro
a luz apagada nada faz parecer noite
sem sombra de dúvidas e sol
amanhecer fica para depois
o sufoco que tosse e ri
do próprio retrato parado no espelho
reflexo
convexo opaco mal acabado
embriagar em doses praticamente letais
um pouco mais talvez
cortariam
mostrariam caminhos
a frente além de passos largos
os ossos que tremem de frio e medo
resquício de uma vontade passageira
que nada acontece ou acaba
ou existe por um motivo
motivo de lágrimas e pudores forjados
lembra que ao andar no vale das sombras
temerás apenas a si mesmo
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
roda da fortuna
a mesma descrição de sempre deferindo fracassos
indulgências e ternuras disformes
ao pouco de fraqueza que ostento em pernas
nada demais irrisório e desesperado
apático sorriso desmiolado sem olhos e braços
os erros são mesmos e sem vontade
e a vontade do vômito volta a garganta
leiam-se mãos e o futuro assombrado
mais um farsante em meio a tantos rostos cansados
todos mentirosos e metidos a besta
e o que resta é suficiente
ou que desnecessário o seja
seria de qualquer forma
o mesmo de sempre
olhos esbugalhados
o faz de conta a falta de vontade
a verdade mascarada em pequenos detalhes
luxuria que esconde em ódio e vingança
vingar as lágrimas e linhas tortas
a beleza que se foi e perdeu o rumo
mandou flores no dia seguinte
onde sobraram as horas perdidas
o estomago vazio e a boca cheia de orgulho
segurando gofo entre os dentes
e se acreditasse em destino
o que faria por aqui?
nada disso saberia dizer ao certo
os ventos gelados em nossas narinas
acreditariam em qualquer respirar
as mãos tocassem as mãos e não dizer adeus
mas sei que temos razão para partir
motivos de se estar por esse lado de cá
onde estão todos os outros olhares?
faz de conta e reconta carneiros mortos
suas cabeças penduradas a sangrar
e ainda assim o não dormir
aqueles olhos esbugalhados
sonhar dói demais
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