quarta-feira, 15 de outubro de 2014

os comprimidos sobre a cabeceira

na calada da noite a voz que sussurra é ruido
a porta que abre e a gota de água enferrujada na pia
quebraram-se os vidros e compotas herméticas
nossos compromissos deliciaram-se de asfalto
o chão é o amigo que não se nega esforçar
deitamos de lado para ludibriar as ancas
lubrificamos todo o peso nas costas de um mundo perdido
de uma vontade vexatória do escondido
os pecados são palavras em algum ponto de vista
alguns pontos cintilantes em microscópio científico
pouco de enxergar e nada que reste de esforço
sou o culpado do pouco que não entendi como esforço
nesse lado de cá do eterno desdenhar do eterno
o efêmero amar o que lhe pouco parece repetir
amei de mais pouco que já nem contas aprendi
resultado de um desamar que meramente confortável
como se só bastassem mais dois comprimidos
para no fim de noite todas as bocas calarem
ao meu ver aceitar um destino irrefutável
nada é demais para quem pouco penhora
chora de lágrimas e soluços ainda que secos
o depois nunca chegará
nem o agora (partindo do imediatismo do agora)
mostra-se trejeitos suficientes para ficar

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

âncoras enferrujadas

nosso incisivo significado de desespero
dá margem de erros onde os olhos não alcançam
e tememos morrer afogados
para que não mais imploremos sossego
eram as âncoras que jamais nos lançam
para que afundemos de pés e corpo e cabeça
em nossos beijos roubados
condenados à morte
perpetuados em pouca coisa
ou nada
reproduzimos nada de diferente
não temos o direito de nos calar por dentro
nosso falatório não tem documento
nem destino que nos faça partir
tomamos religiosamente
nossos remédios descontrolados
pelas mãos que tremem em nós
as mesmas que consolam os outros
para que possamos decidir o que não vemos
e ver é o que sempre não podemos
deliberadamente afogar

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

esmalte vermelho

as unhas pintadas de vermelho sangue
dos dedos roídos de agonia
escapam suavemente entre reentrâncias
onde saímos ilesos
por não sermos quem realmente somos
ainda somos frutos do meio
frutos apodrecidos de tempo
de certezas maculadas dos verões que já foram
sem nenhum sol para nos aquecer
morreremos na lua
no lado obscuro de lá
do lado errado do muro
do lado de cá qualquer for
não enxergamos saída
mesmo que nos indiquem a saída
com uma placa fluorescente
não entendemos o efeito brilhante
nossas direções sempre apontam
em caminhos contrários

pretensões elegantes

o que faz desenterrar buracos eternos em jardins sagrados
o cintilante cheiro de amores estragados
o amor que era pouco acabou e perdeu toda compostura
seguramos tubos de ensaio como não fossemos tropeçar
o chão é o bastante para quem vive em asas de plástico
lugar de abrigo e baixas temperaturas em desconforto
todas as mãos que nos afagam
são as mesmas que nos espancamos
já fomos de outros caracteres e máscaras de papel
já fomos de outros tempos e pretensões elegantes
já fomos de outros mundos e mesmas histórias
nunca mais somos ou jamais seremos
seres

terça-feira, 30 de setembro de 2014

farmacoterapia

o tempo de semear sustenta a natureza morta
do agora os menores pecados de esgoto
sem sombra de dúvidas e frescores pueris
no espelho que finge esconder
as asas que já não mais servem de nada
para amansar a cabeça de curas e remédios
cicatrizar feridas intactas
a todo o custo quanto fosse lamber
implorando a língua em jamais desistir
do desejo de não entender
a sedutora vontade do agouro
em incansavelmente lamber