terça-feira, 23 de julho de 2013

abrigos nucleares

não lembrávamos mais de como sentir dor
ainda assim acabaram os analgésicos
um amontoado de memórias
caixas de papelão e mordaças
amamos a todos que apareciam
oferecendo um pouco de conforto e luxúria

queremos o corpo de qualquer deus
em frascos os que enfeitem prateleiras
temos poeira e o nascimento de outro salvador
era tudo aquilo que podíamos carregar

apodrecíamos debaixo do mesmo sol
com nossas carcaças salgadas
lambendo os beiços
tremendo de frio
ostentando um bocado de medo
do escuro
 
este que poderia ser o único abrigo

não temos muito o que reclamar
desistiríamos
cuspiríamos
cobriríamos nossos corpos
com a vergonha de não querer despertar
abrir os olhos
nossos olhos brilhantes
que varreriam distancias imensuráveis

não tememos a sombra do outro
tudo é tão limpo e imperfeito
as vidraças e abraços forçados
os beijos e jeitos de andar
queríamos o melhor caminho
transaríamos e deixaríamos
 
nossos restos espalhados pelo chão
pedimos a chuva e ela veio
afogando a todos os que nos olhavam
com seus semblantes vulgares

um pouco do nosso sangue

era desejo que baste
e matariam por isso

antes do anoitecer
arrancaram-lhes as cabeças
um a um

e nenhum ao desespero
lhe trariam os filhos
nem choro nem berro
nem os sonhos profanos
as belas imagens
paisagens
um punhado de flores nos bolsos
o perfume de onde devemos voltar

segunda-feira, 22 de julho de 2013

onde termina o amanhã

o mundo é muito perigoso do lado de fora
guardamos o melhor para depois
somos crianças perdidas em tantas vozes
as vozes dos velhos que esqueceram o que dizer
nossos dentes ficaram pelo caminho
muitos açúcares e riscos
soubemos nos acidentar
vendemos energia e impulsos nervosos
serotonina em seringas contaminadas
bocas sujas e cabelos mal cortados
nossos destroços são os olhos e lembranças
a preguiça e quanta felicidade engarrafada
disposta em prateleiras empoeiradas
não mexemos em nada
somos a própria cena do crime
imagem e semelhança
nos espelhos que mentem a todo o tempo
e temos tanto tempo a perder

terça-feira, 16 de julho de 2013

extratos vegetais

todo aquele gosto amargo
descia pelo ralo
pelo canto dos olhos atentos
temos muito cuidado
e poucos lugares onde esconder
o abismo
responde com seu hálito lúgubre
vamos embora para casa
nos aquecemos em jornais
onde todos deixaram seus corpos enfileirados
mãos atadas em troca de conforto
trocados verbos palavras erradas
destinos não ligados
nada dessa baboseira de acaso
a cada pedaço arrancado
da nossa pele
largados os cacos deixados
pelo caminho
fazemos rastros e rostos
bocas e caras
deveres
teríamos qualquer outra coisa a fazer
nosso manto sagrado
entrelaça
nos dedos manchados de carvão
monóxidos e extratos vegetais
falamos em línguas e vozes tantas gritadas
sinais de fumaça
somos um mundo inteiro
de luz apagada
e falsos retratos

sexta-feira, 12 de julho de 2013

breve ensaio sobre o ego parte III

essa tosse presa na garganta
cantaram a chegada do rei
o momento de desistir é agora
tenho medo da desilusão
viver um proposito barato
a sombra e água fresca
quero sentir prazer imediato
não me preocupar com isso
quero sentir lamber beijar

como o reflexo no espelho
sonhar angústias de um futuro próximo
pretérito imperfeito
o acaso dos momentos ordinários

vender minha alma ao primeiro que passar

cair e deixar de lado o ferimento
aprender a andar

antissépticos e contraceptivos
todas as armaduras de defesa
todos os lados necessários
um quarto apertado nos fundos do quintal
a vida eterna e a noite
a sordidez que desnuda os olhos
as mãos imundas e corpo cansado
esperando desesperando
querer ainda todo o resto do mundo

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Bossa Nova

Famintos por conhecimento
Os impulsos nervosos gritam pela janela
Somos os ouvidos do mundo
Não temos música
Nem sequer
Dança para aquecer os pés
Entendemos sobre sentimentos
Correntes elétricas
Memórias adquiridas
Ainda temos muito tempo
E como é difícil decidir
A melhor maneira de morrer
Queremos braços que confortem
Afastem as dores no peito
A falta de ar
Ritmo tempo ritmo
Damos um passo de cada vez
A um horizonte de expectativas
Repleto de arrependimentos
Sabendo

(Somos tão inteligentes)

Que não poderíamos estar mais felizes

A divina física quântica

O enorme espaço tempo conceito
Desencadeia a morte lenta e dolorosa
Viver com todo tipo de...
Resquícios de uma sociedade imoral
A maturidade cobra um preço bem alto

Recém-salvos de nós mesmos

Resumos rabiscados a sangue
Travestidos de seres pensantes
Criamos nossos próprios demônios
Em frascos hermeticamente vedados
Cremos em mentiras mal contadas
Conto de fadas e monstros
Abocanhando a maior parte
Da mão que nos alimenta

Aos olhos que se abrem
Não perguntamos nada demais

Um dia ainda encontraremos respostas
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